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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Análise: Virginia nos leva Ao Farol




É difícil começar sempre uma análise e quanto mais eu leio os romances de Virginia Woolf, este espírito de captar a essência se torna mais importante e chega a me dar certa ansiedade sobre como começar, uma vez que sua obra é esplendida em todos os sentidos e desta vez somos levados a um passeio ao farol, um fato tão simples primeiramente e que se transforma em uma grande jornada sobre o sentido da vida.

É nítido que estamos lidando com uma literatura suprema, assim como estamos lidando com uma das obras mais bem trabalhadas da autora. Publicado em 1927, “Ao Farol” traz muitas características semelhantes ao seu outro romance, publicado anteriormente, “Mrs. Dalloway”, todavia, temos um certo aprimoramento narrativo acontecendo nesta história e, acredito eu, o ápice deste estilo seria publicado anos depois com “As Ondas” – meu romance favorito dela.

Temos um enredo considerado simples nesta história, é apresentado ao leitor a família Ramsay, uma família inglesa abastada que, junto de amigos vai passar suas férias na Ilha de Skye, a Escócia, conhecida pelo seu belo Farol. Entretanto, a simplicidade do enredo é equilibrada perto da grandeza artística e estrutural que esta obra possui, uma vez que temos um romance multifacetado, que traz elementos experimentais muito bem executados, estabelecendo assim, um estilo completamente consistente e muito bem trabalhado, cujo dará a Virginia Woolf um grande renome.

A presente família, em clima de férias, durante uma noite questiona a si mesmos sobre a vida que estão vivendo enquanto esperam o dia clarear para a possibilidade de passearem até o farol. O romance é dividido em três partes e não possui uma linearidade concreta, ou seja, temos idas e vindas sobre os acontecimentos, contados por pontos de vistas distintos dos personagens, trazendo uma elaboração artística muito bem-feita. Não me atentarei muito aos personagens especificamente, mas é muito importante frisar que todos eles nos são apresentados a partir do ponto de vista de outros personagens, ou seja, temos uma narração a partir da visão do outro, o que é muito interessante. Além do mais, não tem como deixar de fora o fato que os personagens do Sr. E a Sra. Ramsay possuem características muito bem fixas e que se referem aos pais da própria autora, que muitas vezes caracterizou este romance como uma “elegia biográfica”. Temos uma mãe compreensiva e doce e um pai mais austero e distante, a dicotomia entre eles refletem na educação de seus filhos, podemos dizer que até vemos certos elementos freudianos nas relações familiares.

Não podemos deixar de fora um dos elementos mais característicos deste romance, se não for o elemento que mais caracteriza a escrita de Virginia Woolf. O fluxo de consciência. Desta vez ele vem genuíno! Até não gosto tanto da terminação “experimental” para esta obra, pois a acho muito bem elaborada, não possui falhas e além disso, Virginia Woolf já tinha alcançado êxito em “Mrs. Dalloway” quando tratamos de fluxo de consciência na narrativa, em “Ao Farol” temos a concretização desse êxito um pouco mais elevado.

As reflexões que são postas nessa história dizem muito também sobre nós mesmos, em certos momentos somos questionados sobre o sentido de nossa própria vida e entramos em trabalho de introspecção e autocrítica. Em especial as reflexões a partir da figura da Sra. Ramsay me chamaram muito a atenção, esta personagem me comoveu inúmeras vezes e vemos que essa sensação era transpassada também para certos personagens na história, de certa forma me senti muito identificada com o processo de fluxo de consciência que Virginia Woolf criou a respeito desta personagem e sua conclusão me tirou o fôlego e acredito que isto é um ponto positivo, eu adoro autores que trazem essas sensações nas minhas leituras. Devo frisar em um momento da história que me chocou muito, foi belo demais de ler, o Sr. Ramsay e sua esposa estavam na sala e em um determinado momento, o mesmo esperava que sua esposa lhe dissesse que o amava, todavia para ela isto era impossível e aquele momento de tensão envolto da aura das duas consciências trabalhando juntas me comoveu muito, é esplendido mesmo a obra de Virginia Woolf.

Acredito que deixou de ter novidade que Virginia Woolf tornou-se uma das autoras mais queridas e admiradas por mim (ela está no mesmo patamar que Jane Austen, para mim), além disso ela tem um valor muito especial para o blog também pois foi a partir de leitura de uma obra dela que comecei tudo e sempre quando posso estou trazendo obras dela por aqui e a minha meta é conseguir trazer todas, ainda faltam alguns, mas chegaremos lá! Tenho muitas esperanças que este blog pendurará por muito tempo ainda e leituras tão maravilhosas como essa possam ser escritas por aqui. Deixo a análise com esta promessa, de persistir no blog e trazer leituras tão fabulosas quanto esta.

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.


segunda-feira, 25 de março de 2019

Análise: O Morro dos ventos uivantes


Estava sentindo falta das fotos com cappuccinos kkkk

Quando falamos de clássicos de um país, na hora associamos certas obras e autores com seu lugar de origem e quando alguém fala de Inglaterra, é possível não associar este lugar com as Irmãs Bronte, e “O Morro dos ventos uivantes” possui uma essência muito única do que é uma literatura na Inglaterra, é uma de suas Magnum opus, se não for a maior! E dentro de mim, me chateava demais não ter lido ainda, mas até que enfim posso dizer que li uma das obras mais únicas já escritas no mundo!

Falar desta obra é primeiramente falar de um romance que influenciou muito uma cultura e até hoje ainda influencia muito, e que ao mesmo tempo nada parecido com isso foi recriado pois é completamente único! Além disso, é muito importante destacar o ano no qual foi escrito e sim, foi escrito por uma mulher! Emily Bronte, assim como suas irmãs e outras autoras como George Eliot e Jane Austen merece o total respeito e admiração por todas as leitoras e escritoras até hoje, pois vemos claramente que elas abriram portas para o que hoje podemos chamar de uma literatura feminina completamente emancipada. Já deu para entender que este livro carrega suma importância por si só, não apenas por ser uma obra fantástica apenas.

Começamos a trama com a chegada do Sr. Lockwood até as propriedades de seu senhorio, o tão frio e misterioso Sr. Heathcliff e uma noite macabra dentro dos aposentos do “Morro dos ventos uivantes” no qual o rapaz presencia a aparição do fantasma de Catherine Linton pedindo para entrar na casa, após esse ocorrido um tanto quanto estranho, somos apresentados a Nelly, a criada que viveu na propriedade e a voz narrativa é passada para ela para contar a história trágica e dolorosa do nosso casal de protagonistas. Muitos anos antes, o dono do “Morro dos ventos uivantes”, o Sr. Earnshaw adota uma criança cigana cujo encontrou em uma de suas viagens e o colocou para viver junto do seu casal de filhos. Este era Heathcliff e nesse momento sua vida estava condenada para sempre a tormenta e ao ódio.

Heathcliff era querido pelo Sr. Earnshaw, mas odiado pelo filho mais velho que desde sempre o maltratou ou desprezou, e dentro do jovem um ódio pelo tal foi crescendo e após a morte do pai, sua vida foi cada vez mais piorando, sendo tratado com certa degradação. Ao mesmo tempo, seu amor por Cathy crescia a cada dia e o sentimento era recíproco, todavia, não o suficiente para curar as mazelas que o jovem possuía e eis que chegamos a um ponto crítico da história. 

Temos em mente que o amor sempre é o sentimento redentor e pleno de toda história de amor, a partir dele tudo seria resolvido, mas no caso desta história é o contrário, acredito que o amor dos dois era cada vez mais venenoso para o espírito dos dois, podemos dizer que era um amor doentio e muito preocupante, cujo abusava e destruía ambos. Sim, não temos um arquétipo de bondade tecido na personalidade dos dois protagonistas, ao mesmo tempo que Heathcliff é insano e doentio, Cathy possui inúmeros defeitos também, ela é egoísta e mesquinha, tanto ao ponto de se recusar a casar com Heathcliff e casar com Edgar Linton devido convenções sociais, alimentando ainda mais a doença horrível que existia dentro de Heathcliff, ambos eram culpados pela destruição do outro.

Sim, em todos os momentos vemos o caráter dos personagens sendo colocados em cheque, inclusive da própria narradora dos fatos, cujo eu acho completamente manipuladora uma vez que ela possui uma opinião bem formada de cada um, tecendo críticas as suas ações e demonstrando o quanto ela poderia interferir nos destinos ali prescritos. Voltando a história, por anos Heathcliff some da charneca e quando retorna, retorna extremamente rico a ponto de comprar as dívidas do irmão de Cathy, se tornando dono do “Morro dos ventos uivantes”, mas nesse momento sua alma está completamente corrompida e cheia de vingança da família Earnshaw, inclusive da própria Cathy no qual ele amava tanto a ponto de querer sua destruição, então começa a arquitetar inúmeras façanhas com o intuito de ser dono de todas as propriedades e desmoralizar a família de Cathy. Eis que Cathy falece no parto, e todos os planos de Heathcliff se mostram ter êxito, mas o mesmo não encontrava paz, sempre fomentado por mais maldade e vingança.

No final, podemos ver uma leve redenção do personagem, mas ela é muito tênue, ele tem um fim junto de sua solidão, fadado a ter seu espírito junto de Cathy, cujo não tinha paz por vagar pela charneca, podemos ver que apenas a morte de ambos apaziguaria tudo e lhe trariam o amor merecido, e podemos ver o quão trágico isso é, a história é completamente trágica, mas isso não quer dizer que seja ruim, pelo contrário, é um dos romances mais perfeitos e originais que já li, não há nada parecido com isso.

Agora, indo para considerações pessoais minhas. Sim, é maravilhoso demais! Todavia, não pode ser dado como um modelo ideal de romance, pois não é justificável o quão abusivo e doentio o casal protagonista foi um com o outro e vejo muito Cathy e Heathcliff dados como heróis ideais de amor, sendo que o amor deles é completamente envenenado e deve ser olhado com muito cuidado, não pode ser dado como ideal. Não deve se associar a figura de Heathcliff com a figura do Sr. Darcy por exemplo, que é muito mais romântica do que ele, Heathcliff é um homem completamente irracional e doente, nenhum pouco romântico e muito sofrido pela vida. Então, devemos desassociar a figura romântica desta obra e apreciar a quão genuína e maravilhosa – a sua maneira, completamente fantasmagórica – ela é!

Com carinho, Malu, a Traça dos livros.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Profissões para mulheres e outros textos feministas, leituras virginianas continuam...


Começamos o ano com mais uma leitura virginiana, estou convicta que assim como Jane Austen, Virginia Woolf ganhou um espaço enorme de admiração dentro de mim e de minha estante e desta vez li algo um pouco mais diferenciado. Havia um tempo que vi que a editora tinha reunido certos ensaios dela e feito este pequeno livro, pequeno apenas em tamanho, pois em qualidade ele atinge níveis extremos.
Primeiro tenho que ressaltar o título “... outros textos feministas” acho muito importante colocar este nome em um título de Virginia, pois mesmo ela não sendo declaradamente feminista em sua escrita, em todos os momentos vemos graus de resistência e crítica a sociedade no qual ela está inserida. Especialmente neste livro o papel da mulher em sociedade e também na literatura são expostos de uma forma magnífica.

O livro reúne sete ensaios da autora sobre um tema central, o papel da mulher na sociedade. Vou destacar a presença da crítica do papel da mulher no ambiente intelectual e da literatura, um campo que para Virginia não se mostrou fácil e que com muito reconhecimento, cita autoras que abriram caminhos para que a mesma pudesse ter a liberdade de escrever, chega a ser inspirador ver ela citando nomes como o de Jane Austen como uma das percursoras da literatura feminina, encorajando outras após ela a fazerem o mesmo.

Saliento o primeiro ensaio cujo Virginia busca desmitificar a concepção tradicional da mulher, vista como um “anjo do lar”, a mesma diz que para obter a posição no qual ela se colocou na literatura, Virginia teve que matar esse anjo, para que assim ocorresse a liberdade para a literatura, desprendendo de amarras que estigmatizavam a mulher como um ser frágil e puro, era preciso exorcizar estes demônios para que assim pudesse seguir o sonho de escrever livremente.

Devo confessar, em alguns momentos me vi emocionada a ler aquelas palavras que iam muito de encontro sobre tudo que eu acredito em minha vida, questões como liberdade, feminismo, literatura, de tanto concordar chegava a sorrir ao ler aquelas lindas palavras. É inspirador demais! É um livro que recomendarei para todas as pessoas que buscam essa liberdade.

Não é de hoje que venho me encantando com a genialidade de Virginia Woolf e saber que ela é uma das responsáveis por pavimentar o caminho que curso mesmo com muita luta ainda percorro, ela não é apenas uma autora, mas uma mulher que não só revolucionou a literatura, mas que pode contribui para que o movimento feminista pudesse ser consolidado, é uma eterna gratidão e admiração.

O texto desta vez foi curto, pois não quero me estender, quero que procurem esta leitura e tenham a mesma sensação que eu tive, de imensa gratidão e profunda admiração por uma mulher que não teve medo de ser a escritora magnífica que foi! Eternamente serei uma admiradora de Virginia Woolf.

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros. 

domingo, 6 de janeiro de 2019

Análise: A Revolução dos Bichos, a necessidade de ler em tempos atuais


Minha colcha de cama está sendo um ótimo fundo para cenário kkkk

Primeira leitura do ano concluída com muito sucesso, começamos o ano com um olhar bem reflexivo sobre a sociedade, mas acredito ser primordial para o momento que estamos vivendo. Primeiramente é preciso dizer, não é uma leitura fácil por ser chocante demais com a realidade, porém é completamente precisa para a vida, uma literatura fundamental.
Eu já havia lido este livro na escola por volta dos meus catorze/ quinze anos, mas achei fundamental ler outra vez para captar aquilo que não havia sido entendido anteriormente ou ter uma nova visão a partir da segunda leitura, como George Orwell está na minha lista de autores ingleses fundamentais para se ler, não achei melhor oportunidade e aqui estamos.

O enredo basicamente conta a história de um grupo de animais que, cansados das explorações causadas pelo seu sono e fomentados pelas palavras de um ancião da fazenda, organizam uma rebelião e tomam a fazendo para si a fim de terem liberdade, instituindo um novo sistema igualitário e de cooperação, denominado Animalismo. Esta sociedade consistia em certos mandamentos que colocavam os animais em uma posição de aversão ao ser humano devido toda a exploração que sofreram ao longo da vida, além disso, fornecia direitos iguais a todos os animais e garantia suas liberdades, temos como exemplo o último mandamento no Animalismo que consistia em dizer “Todos os animais são iguais”. Todavia, aos poucos, os animais mais inteligentes que no caso eram os porcos, começaram a usufruir de privilégios, restituindo os direitos dos outros e logo implantando um sistema de tirania cujo era movido pela total opressão, silenciosamente os direitos dos outros animais foram tirados e os mandamentos modificados, como por exemplo “Todos os animais são iguais, mais uns são mais iguais que os outros”.

Contudo, é necessário nos situarmos do contexto no qual esta obra foi escrita e tudo que ela representa. Claramente, vemos o enredo como uma alegoria a Revolução Russa e a ditadura stalinista que ali se instalou pós revolução. Vemos na figura do ancião, o porco Major, uma figura das teorias que fomentaram a revolução como o Marxismo e o Comunismo, temos Major como a figura de Lenin enquanto os dois outros porcos que o substituíram após sua morte, temos a visão de Trotsky e Stalin, o porco Bola de neve, mais preocupado com a sociedade, muito mais próximo ao povo e que drasticamente é estigmatizado como vilão a ponto de ter que fugir da perseguição poderia simbolizar Trotsky, enquanto Stalin é visto na figura do porco Napoleão, que já tinha maior conhecimento do poderio militar, muito mais enérgico e que aos poucos foi instalando um sistema tirano em cima do que já havia sido posto. Quanto aos animais, vemos a figura do povo que apoiou o sistema com o sonho de ter melhorias e voltou novamente ser escravizado, o desejo de melhoria e liberdade nunca foi completamente ocorrido uma vez que novamente foram perdidos os direitos além de serem os que mais sofreram durante tal regime.

Mesmo com o fim do regime comunista, ainda este livro se faz muito necessário aos dias de hoje além de trazer discussões sobre nosso mundo atual, é preciso enxergar que em qualquer ideologia política, ou qualquer regime, haverá sempre aqueles que serão privilegiados e aqueles que mais serão afetados com a tirania. Atualmente estamos passando por um ano de começo de mandato presidencial e que está gerando muitas críticas e incertezas no país, é necessário sabermos em qual lado estarmos, daqueles que aceitam as mudanças sem questionamento ou aqueles que enxergam e opinam sobre os rumos que o país levará. Uma dica, aqueles que não questionam e relevam os fatos, são os primeiros a serem silenciados.

“De certa maneira, era como se a granja tivesse ficado rica sem que nenhum animal houvesse enriquecido – exceto, é claro, os porcos. ” (Pág. 102).

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Dezembro é o mês da Jane Austen e então decidi ler Emma





Dia 16 de dezembro de 1775, nascia uma das autoras inglesas mais influentes da sua época e que até hoje inspira e motiva muitos escritores e, assim como eu, leitores também. É difícil falar sobre ela aqui no blog, pois sou uma admiradora assídua de sua obra e quanto mais amamos um certo escritor, mais árduo é nosso trabalho de exaltá-lo, não existe palavras o suficiente para descrever minha afeição por Jane Austen e para nunca esquecer das suas obras, decidi que todo mês de dezembro eu lerei algum romance seu, mesmo que eu tenha lido outros ao decorrer do ano, em dezembro eu lerei Jane Austen e esse ano decidi ler Emma.

Este romance traz as características bem conhecidas de Jane Austen, a história de uma jovem inglesa e o retrato da sociedade cujo ela pertencia, então temos os bailes, passeios e cortes muito em retratados, sem perder o estilo da época e o próprio estilo que Jane Austen é conhecida. Pela primeira frase do livro, já sabemos como Emma realmente é. “Emma Woodhouse, bonita, inteligente e rica. ” Pode soar superficial, mas é aqui que a ironia nata da autora entra em jogo no romance, Emma ao mesmo tempo que se limita a esses atributos torna-se – ouso dizer – a melhor personagem do universo dos romances de Jane Austen.

Sim, Emma de longe é a personagem/protagonista mais completa de Jane Austen, pois ela é um pacote completo de eterno carisma e até uma certa forma de humor. Emma nos envolve na história por sempre possuir aquele caráter puro e cheio de sonhos, que chega a ser ingênuo, mas que é lapidado a cada capítulo. A personagem cresce junto a narrativa, ela é cativante pois passa de fútil a encantadora, ela é engraçada e atrapalhada, mas junto de ti leva um espírito muito forte e convicto, ela conhece seu papel na sociedade e tenta dar um passo à frente.

Quando falamos das heroínas de Jane Austen, até mesmo Elizabeth Bennet possui um caráter mais sóbrio, mesmo sendo muito à frente de seu tempo – darei apenas seu exemplo para não me estender nos outros romances – Emma consegue sobrepor Elizabeth por possuir um carisma único e cativante e podemos dizer que sua condição de não querer se casar durante uma grande parte do livro nos mostra como ela sabia em qual camada social ela pertencia – uma classe alta – e com isso poderia usufruir de tal escolha, de ver o casamento com outros olhos e saber que já possuía dentro da casa de seu pai, um título de dona e que não existia tantas vantagens assim em um casamento perto do que ela já possuía, nos mostrando o quão articulada ela poderia ser. Emma não era fã da literatura, era sociável e nobre, mais uma vez trazendo a ideia de uma heroína muito diferente da outras, podemos dizer que ela é uma das protagonistas mais bem construídas de Jane Austen.

Bem, até agora só falei de Emma e não contei muito do enredo em si, esse livro é uma daquelas obras que possuem um enredo bem simples em vista da complexidade de outros quesitos, como o dos personagens, que possuem personalidades únicas e distintas. Temos a vida de Emma sendo relatada, assim como as pessoas que com ela convive em seu círculo social e Emma possui uma característica, o qual é a mais conhecida pelos leitores, de querer unir casais, algumas vezes com sucesso, como no caso do Sr. e a Sra. Weston, outras vezes não, como na maioria dos casos, mas Emma possuía uma excelente índole e muitas vezes por ingenuidade não percebia as reais intenções das pessoas, ela buscava fazer o bem. Então temos ao decorrer da história inúmeros eventos que geram muita diversão á nós leitores com uma linguagem amena e divertida, mesmo com quase seiscentas páginas o livro não nos cansa.

Outro aspecto muito lindo e importante de salientar é a relação amorosa de Emma e o Sr. Knightley, pois também é um romance diferente dos outros vistos nos romances austenianos, temos aqui uma relação fraternal que foi sendo construída amorosamente. Sr. Knightley é um homem muito mais distante das pessoas, mas que sempre possuiu uma amizade cativante com Emma e que aos poucos foi construindo o romance da história, ambos um com o outro são muito sinceros e verdadeiros e chega a ser belo como ambos descobrem estar apaixonados, acredito que é uma forma bem real de um romance, não possui muitas idealizações ou adereços, simplesmente acontece.

Portanto, podemos concluir que foi uma experiência maravilhosa (na verdade, é uma releitura para mim) que me divertiu e me fez amar cada vez mais as obras de Jane Austen. A ela, sou eternamente grata por cada vez que nos encontramos por meio da leitura, me inspirar e aprimorar tudo o que eu sou, como é incrível ser transformada pela literatura!

Com carinho, Malu, a Traça dos livros.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Análise: A outra volta do parafuso e meu leitor misterioso




Esperei a febre do mês de outubro passar, quase todos os canais e blogs que conheço enfatizaram muito a temática do Halloween e de histórias de terror, mistério e morte para enfim ler esse clássico da literatura inglesa. Além disso, foi meu primeiro contato com Henry James, um escritor inglês muito renomado (desafio dos 20 autores) e que eu estava ansiosa para conhecer, não me decepcionei, o resultado dessa leitura foi incrível!

Vamos começar falado do título, em inglês o conto chama “The turno of the screw” e conseguimos entender o porquê deste título a partir do desenrolar da história. Começamos com um clássico dos contos de terror, pessoas reunidas contando histórias horripilantes, até que um dos ouvintes alega ter uma história aterrorizante, a mais aterrorizante de todas e que envolviam duas crianças, ele conta a história de uma mulher que não sabemos o nome, a partir das suas anotações que foram confiadas a tal narrador. Então começamos a saber a história pelo ponto de vista dela.

Uma jovem mulher, filha de um pároco, que buscava um emprego digno e se deparou com um belo homem cujo à primeira vista se viu atraída, o mesmo tinha uma proposta para ser uma governanta no interior do país, para seus dois sobrinhos cujo tinha a tutela, ao aceitar a proposta, ela devia estar ciente que o mesmo não queria contato com as crianças, a nova governanta não poderia escrevê-lo, pois não era do seu interesse saber sobre as crianças e ficava na responsabilidade dela resolver os problemas que poderiam aparecer. Ainda envolvida por ele, a jovem aceita o emprego e vai para a casa em Bly.

Primeiramente, ela conhece Flora, uma menina linda e adorável que logo tem toda a sua empatia. Posteriormente ela veio a conhecer Miles que, estranhamente foi expulso do colégio interno por má conduta, mas ao conhece-lo percebe que ele era o contrário disso, além de extremamente belo, era simpático e inocente, ou seja, a moça logo tem total amor pelas duas lindas crianças e tudo parecia ser belo aos seus olhos nesse novo emprego.

Então, eis que as complicações começaram a aparecer. A tal jovem começa a ver o fantasma de duas pessoas, a antiga governanta da casa e o mordomo, ambos mortos antes dela chegar em Bly, o mesmo casal tinha um caso escandaloso pela casa e a jovem começa a acreditar que não é a única que pode vê-los, as crianças também podiam e começa então querer a qualquer custo protegê-las e faze-las confessar que também viam tais fantasmas. Es que o título se faz pertinente. Todavia, esse excesso de proteção e convicção de seus atos levará a uma desgraça no final, leiam a história e ficarão completamente sem rumo com o final que tudo levará.

Como sempre, eu nunca deixo os detalhes técnicos ou estruturais das obras de lado, mas venho aqui contar uma história um pouco diferente dessa vez. É a história do meu leitor fantasma, cabe bem com a premissa que o livro trazia. Peguei emprestado na biblioteca da minha faculdade o exemplar e posso dizer que algum leitor antes de mim fez anotações e grifos em momentos da história que enriqueceram muito a minha leitura, um leitor fantasma muito atento aos detalhes que me indicava pistas ou sugeria interpretações, muito atento a forma, indicando tempo e espaço com muita rigidez e que me deu uma possibilidade de leitura muito vasta. A este leitor fantasma – cujo tenho quase certeza que se trata de um estudante de letras também – agradeço infinitamente por ter sido tão atento e genial, fez da minha leitura lago muito mais enriquecedor.

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.

sábado, 13 de outubro de 2018

Minhas leituras Virginianas



“Não quero ser célebre nem grande. Quero avançar, mudar abrir meu espírito e meus olhos, recusar ser rotulada e estereotipada. ”

Depois de ler alguns dos seus romances, nada mais justo ler a sua própria biografia. Dessa vez reuni dois livros: “As mulheres de Virginia Woolf de Vanessa Curtis e “Virginia Woolf, Biografia” de Alexandra Lemasson, duas leituras que abriram meus horizontes sobre a obra dessa autora e que vão fazer toda a diferença no futuro.
Eu já tinha esta biografia de bolso da Virginia, mas não tinha achado a melhor oportunidade para ler, o momento chegou um dia perambulando a biblioteca da minha faculdade, sem querer achei “Mulheres de Virginia Woolf” numa estante e me empolguei de ler sobre a vida dessa autora que está conquistando muito meu coração e estante.

Primeiro vou falar do livro da Vanessa Curtis, e já posso começar dizendo, que trabalho mais delicado e minucioso! Pois se trata de uma biografia de Virginia, mas com a ênfase nas mulheres que passaram por sua vida e, de certa forma, contribuíram para a vida dela e sua obra. A autora traçou uma linha do tempo de acordo com cada capítulo que era dedicado a uma figura feminina ligada a Virginia, desde sua mãe, avô, irmã, companheiras até a própria Virginia. Tudo narrado com muita precisão, técnica e esmero, um livro realizado com maestria, um estudo detalhado e maravilhoso, que te envolvia e emocionava, pois, cada passo que você lia sobre certa mulher, mais você conhecia Virginia.

Outro aspecto que me chamou muita atenção e que sempre vou me recordar é como as histórias de Virginia com certas personagens femininas estão ligadas aos seus romances. Sempre soube que Orlando foi uma homenagem a Vita Sackville-West que foi sua grande amiga e amante, mas é muito interessante ver os aspectos diversos em outros personagens, como a figura de sua mãe na Sra. Ramsay de Passeio ao farol e como sua irmã Vanessa é homenageada em Noite e Dia pela figura da protagonista Katherine. Essas mulheres não só influenciaram sua vida, mas como também foram cruciais para seu desenvolvimento como escritora, e conseguimos enxergar como, de certa forma, Virginia se sentia grata por isso através de seus romances, como se eternizasse para sempre aquelas que tanto amou.

Quando comecei a leitura de sua outra biografia, a experiência foi extremamente diferente, mas o resultado foi igual. Como é incrível, história é igual, mas contada de formas completamente diferentes. No caso da biografia de Alexandra Lemasson, tudo é retratado de forma, podemos dizer, “romanceada”. É como se estivéssemos mergulhados em uma narrativa de uma bela e trágica história de uma mulher predestinada a ser extraordinária, chega a ser idealizado o retrato de Virginia Woolf dentro da história, como uma pessoa perfeita com suas imperfeições, soa ambíguo, mas lendo este livro se torna sensato.

Não posso dizer que não gostei de ter lido, pois eu gostei bastante, só tive uma visão um pouco nebulosa dos fatos, tudo parecia muito perfeito e preciso, como se tivesse maquiagem nos momentos que sabemos que na vida de Virginia foram muito conturbados e o fato de não ter uma ordem cronológica, tudo parece montado de forma desordeira e confusa, cheio de elogios à vida da autora, como se tudo que foi trágico parecesse atos românticos e artísticos, chega a ser um pouco plastificado, mas a essência é a mesma do livro de Vanessa Curtis, retratar a vida dessa autora.

Finalizando, me sinto cada vez mais íntima da literatura de Virginia Woolf, parece que de pouco a pouco estou conhecendo as nuances e os detalhes desta mulher tão magnifica. De agora em diante, nunca mais as leituras serão as mesmas, pois sempre terei novas visões por conhece-la melhor a partir dessas biografias. Virginia Woolf cada vez mais está ganhando minha vida e se tornando uma das minhas autoras favoritas.

“Para Virginia, se a felicidade existe, ela só pode ser literária. ” (Pág. 41)

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Análise: Grandes Esperanças



Chega a ser difícil saber por onde começar a análise desta obra, realmente, não é à toa Grandes Esperanças ser considerado o Magnum oppus de Charles Dickens, e nada como começar um desafio literário com um livro que, com certeza, irei levar por toda minha vida.
Ano passado – quase que na mesma época – eu li “Oliver Twist”, um título muito conhecido do autor. Tive impressões muito positivas, mas também muitas dúvidas, pareceu-me que o estilo de Dickens não tinha sido compreendido por mim naquela leitura, mas a vontade de continuar lendo obras dele persistiu e chegou o dia que um novo livro dele surgiu em minha vida. Comecei um novo desafio literário sobre literatura inglesa, para me engajar mais e foi gratificante iniciar com este livro magnífico.

Então vamos a história, o que o autor trabalha sobre todo o arco do romance é a questão da redenção moral, e é a partir disto que discutiremos toda a história. Grandes Esperanças apresenta um narrador contando suas memórias da vida jovem, o narrador conta sua própria trajetória, a trajetória de Pip. Um garoto órfão que vivia em Essex junto de sua irmã mais velha e seu cunhado, um ferreiro, fadado a viver aquela vida dura como aprendiz e tudo começa a se agitar a partir do seu encontro com Magwtich, um fugitivo da prisão cujo Pip presta auxílio. A partir dali grandes expectativas vão rodear o menino.

Pip era um menino muito sofrido e humilde, junto com seu cunhado, Joe Gargery, tinha uma grande amizade e sabia que seguiria a profissão dele. Naquela época, uma mulher começa a pedir os serviços de Pip para entretê-la com uma brincadeira de criança, esta era a Sra. Havisham, uma mulher fina e rica, mas ao mesmo tempo muito complexa e amarga. Com ela, vivia Estella, uma garota que foi agraciada com a adoção e que foi a grande amor de Pip desde o primeiro momento. Todavia, Stella se mostra ser o pior tipo de pessoa, uma menina completamente mesquinha e esnobe, moldada para ser fina e detestável.

Este contato com a fina família da Sra. Havisham começa a despertar muita vergonha de Pip sobre si mesmo e suas condições, por muitos momentos ele é rebaixado e o próprio se coloca nessa posição muitas vezes, assim, começa dentro de si criar um desejo de não seguir o que o destino lhe estava guardado. Eis que grandes esperanças aparecem sobre ele, um senhor anônimo lhe concede sua fortuna para que ele se torne um cavalheiro, assim toda sua antiga vida seria deixada para trás e ele viveria em Londres, com as condições necessárias para se transformar em um ser da elite.

Em Londres, temos a gradativa decadência moral de Pip. Envergonhado pelo seu passado e pelas pessoas que viviam neste passado, a busca de subir na vida que gerou inúmeras dívidas e seu amor completamente despedaçado pela maldosa Estella. Mesmo criando laços com amigos honestos, Pip se vê em Londres completamente perdido, o meio o modifica e temos seus valores colocados a prova e suas esperanças sendo perdidas. Vemos que Dickens colocou o espaço como um fator de corrosão dos personagens, o meio fez eles sucumbirem à degradação, um dos tons críticos do autor que passam despercebidos as vezes.

Já na terceira parte do livro, a redenção começa a ocorrer não apenas com ele, mas com muitos personagens como a Sra. Havisham que percebeu que toda a frieza que criou Stella não levou a nada, nem mesmo sua própria mãe adotiva ela conseguia amar, mas no final conseguiu reconciliar com sua família que tanto criticou. Ou Magwtich, que foi de fugitivo da prisão para trabalhador e pagou seus pendentes a sociedade com sua reconciliação e amor de Pip, que esteve com ele até o último minuto. E além disso, Pip também teve sua redenção, desistindo da vida de cavalheiro, ele se tornou um caixeiro viajante e passou o resto de sua vida viajando pelo mundo, retomou laços com Joe e Biddy, amigos fieis até o fim e que Pip se recusava a enxergar e no final temos o seu reencontro com Estella, uma mulher completamente sofrida e arrependida pelo seu passado, todavia não sendo mais possível a reconciliação dos dois, ambos seguem caminhos diferentes.

Dickens nessa obra, traz o mais íntimo do ser humano em cada personagem e constrói um processo – como já dizemos antes – de redenção moral para cada um deles. Temos personagens completamente humanos, pois possuem sentimentos controversos, divididos entre a ingratidão e bondade, corrompidos e arrependidos pelas escolhas que geram um resultado futuro, mas no caminho da evolução. São questões inerentes ao ser humano e que são muito bem tratadas na narrativa nos causando muitas reflexões e até mesmo identificação, será que a busca movida pela ambição realmente vale a pena? A jornada humana é mesmo muito complexa.

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

20 autores essenciais da língua inglesa, desafio literário



Malu, você não se cansa não? Eu me canso bastante pessoal, mas a leitura as vezes pode ser a melhor forma de descansar e é por isso que estou em mais um desafio literário! A literatura inglesa sempre foi um assunto que me chamou muita atenção e muito dos meus autores favoritos são da Inglaterra (tenho uma paixão particular por esse país), então quis unir o útil ao agradável, buscando alguns dos grandes nomes do cânone inglês e sabendo mais sobre a literatura desse país que tem muito referência.

Através do site “Homo Literatus” selecionei vinte nomes de grandes autores ingleses e vou me propor a ler uma obra de cada um deles, tem nomes que eu não conhecia, outros que eu amo, vai ser divertido demais. Aí vai a lista de nomes:
  • Geoffrey Chaucer
  • Thomas Malory
  • Thomas More
  • William Shakespeare
  • Daniel Defoe
  • Jonathan Swift
  • Samuel Richardson
  • Jane Austen
  • Charles Dickens
  • Irmãs Bromte
  • George Eliot
  • Thomas Hardy
  • Oscar Wilde
  • Henry James
  • Joseph Conrad
  • Virginia Woolf
  • Aldous Huxley
  • George Orwell
  • Graham Greene
  • Anthony Burgess

Esta lista está em ordem cronológica, porém eu não seguirei ordem alguma e assim como o CBC, eu não sei quanto tempo este desafio existirá, pois irá depender dos livros que eu consegui encontrar para leitura, talvez o período da minha graduação inteira, mas ele existirá! Mas Malu, porque você está fazendo isso, porque não autores do seu país? Eu reconheço que temos grandes autores no Brasil, mas gostaria de futuramente (quem sabe estudar a literatura inglesa e por isso quero começar com os grandes nomes, eu sei que faltam alguns, foi difícil para mim discernir todos, mas é só um começo. Para estrear o desafio, estou lendo “Grandes Esperanças” do Charles Dickens, aguardem novas postagens, pois muito chá, livros e Inglaterra serão comentados nesse desafio!

Com Carinho, Malu, a Traça dos Livros.