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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Análise: Virginia nos leva Ao Farol




É difícil começar sempre uma análise e quanto mais eu leio os romances de Virginia Woolf, este espírito de captar a essência se torna mais importante e chega a me dar certa ansiedade sobre como começar, uma vez que sua obra é esplendida em todos os sentidos e desta vez somos levados a um passeio ao farol, um fato tão simples primeiramente e que se transforma em uma grande jornada sobre o sentido da vida.

É nítido que estamos lidando com uma literatura suprema, assim como estamos lidando com uma das obras mais bem trabalhadas da autora. Publicado em 1927, “Ao Farol” traz muitas características semelhantes ao seu outro romance, publicado anteriormente, “Mrs. Dalloway”, todavia, temos um certo aprimoramento narrativo acontecendo nesta história e, acredito eu, o ápice deste estilo seria publicado anos depois com “As Ondas” – meu romance favorito dela.

Temos um enredo considerado simples nesta história, é apresentado ao leitor a família Ramsay, uma família inglesa abastada que, junto de amigos vai passar suas férias na Ilha de Skye, a Escócia, conhecida pelo seu belo Farol. Entretanto, a simplicidade do enredo é equilibrada perto da grandeza artística e estrutural que esta obra possui, uma vez que temos um romance multifacetado, que traz elementos experimentais muito bem executados, estabelecendo assim, um estilo completamente consistente e muito bem trabalhado, cujo dará a Virginia Woolf um grande renome.

A presente família, em clima de férias, durante uma noite questiona a si mesmos sobre a vida que estão vivendo enquanto esperam o dia clarear para a possibilidade de passearem até o farol. O romance é dividido em três partes e não possui uma linearidade concreta, ou seja, temos idas e vindas sobre os acontecimentos, contados por pontos de vistas distintos dos personagens, trazendo uma elaboração artística muito bem-feita. Não me atentarei muito aos personagens especificamente, mas é muito importante frisar que todos eles nos são apresentados a partir do ponto de vista de outros personagens, ou seja, temos uma narração a partir da visão do outro, o que é muito interessante. Além do mais, não tem como deixar de fora o fato que os personagens do Sr. E a Sra. Ramsay possuem características muito bem fixas e que se referem aos pais da própria autora, que muitas vezes caracterizou este romance como uma “elegia biográfica”. Temos uma mãe compreensiva e doce e um pai mais austero e distante, a dicotomia entre eles refletem na educação de seus filhos, podemos dizer que até vemos certos elementos freudianos nas relações familiares.

Não podemos deixar de fora um dos elementos mais característicos deste romance, se não for o elemento que mais caracteriza a escrita de Virginia Woolf. O fluxo de consciência. Desta vez ele vem genuíno! Até não gosto tanto da terminação “experimental” para esta obra, pois a acho muito bem elaborada, não possui falhas e além disso, Virginia Woolf já tinha alcançado êxito em “Mrs. Dalloway” quando tratamos de fluxo de consciência na narrativa, em “Ao Farol” temos a concretização desse êxito um pouco mais elevado.

As reflexões que são postas nessa história dizem muito também sobre nós mesmos, em certos momentos somos questionados sobre o sentido de nossa própria vida e entramos em trabalho de introspecção e autocrítica. Em especial as reflexões a partir da figura da Sra. Ramsay me chamaram muito a atenção, esta personagem me comoveu inúmeras vezes e vemos que essa sensação era transpassada também para certos personagens na história, de certa forma me senti muito identificada com o processo de fluxo de consciência que Virginia Woolf criou a respeito desta personagem e sua conclusão me tirou o fôlego e acredito que isto é um ponto positivo, eu adoro autores que trazem essas sensações nas minhas leituras. Devo frisar em um momento da história que me chocou muito, foi belo demais de ler, o Sr. Ramsay e sua esposa estavam na sala e em um determinado momento, o mesmo esperava que sua esposa lhe dissesse que o amava, todavia para ela isto era impossível e aquele momento de tensão envolto da aura das duas consciências trabalhando juntas me comoveu muito, é esplendido mesmo a obra de Virginia Woolf.

Acredito que deixou de ter novidade que Virginia Woolf tornou-se uma das autoras mais queridas e admiradas por mim (ela está no mesmo patamar que Jane Austen, para mim), além disso ela tem um valor muito especial para o blog também pois foi a partir de leitura de uma obra dela que comecei tudo e sempre quando posso estou trazendo obras dela por aqui e a minha meta é conseguir trazer todas, ainda faltam alguns, mas chegaremos lá! Tenho muitas esperanças que este blog pendurará por muito tempo ainda e leituras tão maravilhosas como essa possam ser escritas por aqui. Deixo a análise com esta promessa, de persistir no blog e trazer leituras tão fabulosas quanto esta.

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Profissões para mulheres e outros textos feministas, leituras virginianas continuam...


Começamos o ano com mais uma leitura virginiana, estou convicta que assim como Jane Austen, Virginia Woolf ganhou um espaço enorme de admiração dentro de mim e de minha estante e desta vez li algo um pouco mais diferenciado. Havia um tempo que vi que a editora tinha reunido certos ensaios dela e feito este pequeno livro, pequeno apenas em tamanho, pois em qualidade ele atinge níveis extremos.
Primeiro tenho que ressaltar o título “... outros textos feministas” acho muito importante colocar este nome em um título de Virginia, pois mesmo ela não sendo declaradamente feminista em sua escrita, em todos os momentos vemos graus de resistência e crítica a sociedade no qual ela está inserida. Especialmente neste livro o papel da mulher em sociedade e também na literatura são expostos de uma forma magnífica.

O livro reúne sete ensaios da autora sobre um tema central, o papel da mulher na sociedade. Vou destacar a presença da crítica do papel da mulher no ambiente intelectual e da literatura, um campo que para Virginia não se mostrou fácil e que com muito reconhecimento, cita autoras que abriram caminhos para que a mesma pudesse ter a liberdade de escrever, chega a ser inspirador ver ela citando nomes como o de Jane Austen como uma das percursoras da literatura feminina, encorajando outras após ela a fazerem o mesmo.

Saliento o primeiro ensaio cujo Virginia busca desmitificar a concepção tradicional da mulher, vista como um “anjo do lar”, a mesma diz que para obter a posição no qual ela se colocou na literatura, Virginia teve que matar esse anjo, para que assim ocorresse a liberdade para a literatura, desprendendo de amarras que estigmatizavam a mulher como um ser frágil e puro, era preciso exorcizar estes demônios para que assim pudesse seguir o sonho de escrever livremente.

Devo confessar, em alguns momentos me vi emocionada a ler aquelas palavras que iam muito de encontro sobre tudo que eu acredito em minha vida, questões como liberdade, feminismo, literatura, de tanto concordar chegava a sorrir ao ler aquelas lindas palavras. É inspirador demais! É um livro que recomendarei para todas as pessoas que buscam essa liberdade.

Não é de hoje que venho me encantando com a genialidade de Virginia Woolf e saber que ela é uma das responsáveis por pavimentar o caminho que curso mesmo com muita luta ainda percorro, ela não é apenas uma autora, mas uma mulher que não só revolucionou a literatura, mas que pode contribui para que o movimento feminista pudesse ser consolidado, é uma eterna gratidão e admiração.

O texto desta vez foi curto, pois não quero me estender, quero que procurem esta leitura e tenham a mesma sensação que eu tive, de imensa gratidão e profunda admiração por uma mulher que não teve medo de ser a escritora magnífica que foi! Eternamente serei uma admiradora de Virginia Woolf.

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros. 

sábado, 13 de outubro de 2018

Minhas leituras Virginianas



“Não quero ser célebre nem grande. Quero avançar, mudar abrir meu espírito e meus olhos, recusar ser rotulada e estereotipada. ”

Depois de ler alguns dos seus romances, nada mais justo ler a sua própria biografia. Dessa vez reuni dois livros: “As mulheres de Virginia Woolf de Vanessa Curtis e “Virginia Woolf, Biografia” de Alexandra Lemasson, duas leituras que abriram meus horizontes sobre a obra dessa autora e que vão fazer toda a diferença no futuro.
Eu já tinha esta biografia de bolso da Virginia, mas não tinha achado a melhor oportunidade para ler, o momento chegou um dia perambulando a biblioteca da minha faculdade, sem querer achei “Mulheres de Virginia Woolf” numa estante e me empolguei de ler sobre a vida dessa autora que está conquistando muito meu coração e estante.

Primeiro vou falar do livro da Vanessa Curtis, e já posso começar dizendo, que trabalho mais delicado e minucioso! Pois se trata de uma biografia de Virginia, mas com a ênfase nas mulheres que passaram por sua vida e, de certa forma, contribuíram para a vida dela e sua obra. A autora traçou uma linha do tempo de acordo com cada capítulo que era dedicado a uma figura feminina ligada a Virginia, desde sua mãe, avô, irmã, companheiras até a própria Virginia. Tudo narrado com muita precisão, técnica e esmero, um livro realizado com maestria, um estudo detalhado e maravilhoso, que te envolvia e emocionava, pois, cada passo que você lia sobre certa mulher, mais você conhecia Virginia.

Outro aspecto que me chamou muita atenção e que sempre vou me recordar é como as histórias de Virginia com certas personagens femininas estão ligadas aos seus romances. Sempre soube que Orlando foi uma homenagem a Vita Sackville-West que foi sua grande amiga e amante, mas é muito interessante ver os aspectos diversos em outros personagens, como a figura de sua mãe na Sra. Ramsay de Passeio ao farol e como sua irmã Vanessa é homenageada em Noite e Dia pela figura da protagonista Katherine. Essas mulheres não só influenciaram sua vida, mas como também foram cruciais para seu desenvolvimento como escritora, e conseguimos enxergar como, de certa forma, Virginia se sentia grata por isso através de seus romances, como se eternizasse para sempre aquelas que tanto amou.

Quando comecei a leitura de sua outra biografia, a experiência foi extremamente diferente, mas o resultado foi igual. Como é incrível, história é igual, mas contada de formas completamente diferentes. No caso da biografia de Alexandra Lemasson, tudo é retratado de forma, podemos dizer, “romanceada”. É como se estivéssemos mergulhados em uma narrativa de uma bela e trágica história de uma mulher predestinada a ser extraordinária, chega a ser idealizado o retrato de Virginia Woolf dentro da história, como uma pessoa perfeita com suas imperfeições, soa ambíguo, mas lendo este livro se torna sensato.

Não posso dizer que não gostei de ter lido, pois eu gostei bastante, só tive uma visão um pouco nebulosa dos fatos, tudo parecia muito perfeito e preciso, como se tivesse maquiagem nos momentos que sabemos que na vida de Virginia foram muito conturbados e o fato de não ter uma ordem cronológica, tudo parece montado de forma desordeira e confusa, cheio de elogios à vida da autora, como se tudo que foi trágico parecesse atos românticos e artísticos, chega a ser um pouco plastificado, mas a essência é a mesma do livro de Vanessa Curtis, retratar a vida dessa autora.

Finalizando, me sinto cada vez mais íntima da literatura de Virginia Woolf, parece que de pouco a pouco estou conhecendo as nuances e os detalhes desta mulher tão magnifica. De agora em diante, nunca mais as leituras serão as mesmas, pois sempre terei novas visões por conhece-la melhor a partir dessas biografias. Virginia Woolf cada vez mais está ganhando minha vida e se tornando uma das minhas autoras favoritas.

“Para Virginia, se a felicidade existe, ela só pode ser literária. ” (Pág. 41)

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Contos Completos de Virginia Woolf


“A decisão era deixar o mundo melhor do que ela o havia encontrado...” (Pág. 337)

Eu cheguei à conclusão de que não irei descansar até ler a obra completa de Virginia Woolf e dessa vez, escolhi ler seus contos. A reunião de cinquenta contos produzidos durante todo o período de criação literária da autora, é complicado falar sobre um livro com tanto conteúdo uma vez que os contos são diversos, mas posso dizer que se existe algo que pode descrever a produção contista de Virginia Woolf é a preparação.

Digo preparação pois conseguimos captar todos os artifícios presentes em sua obra de forma experimental e também como forma de maturação, conseguimos perceber o progresso da autora em relação à forma, como ela vai aprimorando seu estilo ao passar do tempo e também como certos enredos começaram a ser construídos. Se você ler cada um na sequência, também irá perceber que alguns contos conversam entre si, um personagem de um conto x está presente também no conto y, ou o cenário é sugestivo para um próximo conto, como por exemplo, Kew Gardens é citado em vários contos até ganhar um conto em especial. Eu realmente não sei se a autora tinha alguma intenção com isso, mas quero acreditar que em cada conto ela deixava pistas para os próximos que viriam.

Não posso deixar de mencionar que nossa querida Mrs. Dalloway aparece como personagem já em contos da Virginia Woolf. Sua primeira aparição é no conto “Mrs. Dalloway em Bond Street” e temos como primeira frase deste conto algo muito familiar: “Mrs. Dalloway disse que ela mesma ia comprar as luvas. ” Soa familiar para vocês? Porque para mim, é um tanto quanto, mais uma vez friso na preparação, nesse conto temos uma personagem, um enredo e um estilo sendo criados antes no romance que consagrou a escritora. Mrs. Dalloway pareceu me outros contos também, em especial no conto “A Apresentação” que eu não podia deixar de citar, pois foi o meu primeiro contato com a obra da Virginia, a um ano atrás, na aula de Teoria do Texto Narrativo, posso dizer que este conto é bem especial e particular para mim, pois é minha introdução ao mundo literário de Virginia Woolf, daquele dia em diante eu estaria lendo e mais lendo suas obras.

Agora vou deixar reservado este momento para comentar de dois contos que eu adorei muito! Talvez eles sejam os meus favoritos. O primeiro se chama “ Uma sociedade”, nesse um grupo de mulheres se reúnem e discutem sobre a sociedade que vivem, são mulheres instruídas e com grandes ideias, mas percebem que nunca serão realmente ouvidas na sociedade, temos ali um grande tom de ironia ao falar de temas como a literatura ou o casamento, no final, temos o anúncio da Guerra após o seu término, temos o reencontro destas mulheres depois de tantos anos tentando refletir sobre o que a sociedade se tornou depois da Guerra e o que poderia ser feito para o futuro. Achei esse conto de uma reflexão tremenda sobre a relação da sociedade e a mulher, tal reflexão que se torna atemporal, já que você consegue ter o mesmo questionamento anos depois que o conto foi publicado.

O outro conto que me cativou muito foi o “Lapin e Lapinova”, a história de um casal recém-casado que ao se conhecerem após o matrimonio, Rosalind percebe um gesto diferente em seu marido, seu nariz tremia feito uma lebre e daquele dia em diante, o espírito do casal se transformou em duas lebres em uma floresta apenas deles, Lapin e Lapinova, uma união particular e única deles, o espírito do casamento daquele casal. Passou os anos e um dia Rosalind sente que algo está diferente e inquieto dentro de si, foi naquele momento que ela percebeu que a alma de sua lebre Lapinova se foi e nada mais poderia ser feito. Uma alegoria sobre as relações de amor que são únicas e que um dia podem simplesmente... acabar. Me tocou muito a delicadeza de tudo que passou no conto, no final me via emocionada.

“ ‘É Lapinova...’, balbuciou ela, fitando-o tumultuosamente com seus grandes olhos sobressaltados. ‘Ela se foi, Ernest. Eu a perdi! ’ (...) E esse foi o fim daquele casamento. ” (Pág. 390)

Voltando a falar da forma, não podia deixar de falar sobre o fluxo de consciência, se for falar de Virginia Woolf e não citar este artificio muito bem usado pela autora, seria melhor eu me retirar. Com maestria a autora consegue desenvolver profundos momentos de fluxo de consciência em seus contos, deixo em especial o conto “A marca na parede” que a partir de um dia que uma marca na parede foi vista, inúmeras reflexões são costuradas ao decorrer da narrativa e a marca na parede foi apenas um estopim para aquela história se desenvolver. Ao correr da leitura, vemos como esta técnica foi se aprimorando com o passar do tempo e vestígios dos que seriam os romances publicados da autora já apareciam, como por exemplo o romance “As Ondas” em muitos contos consegui perceber características semelhantes. Mais uma vez caímos na preparação.

Preparação, ao escrever sobre isso me recordei sobre a minha última aula de Consolidação da Literatura Brasileira, estudamos o projeto literário de Machado de Assis e podemos notar que até ele publicar o seu primeiro romance, Machado de Assis passou por uma preparação a partir de seus poemas, contos, crônicas, ensaios até publicar Ressurreição e seus outros romances, houve um processo de reflexão e maturação que o fez ser o que até hoje estudamos. Quero crer que o mesmo houve com Virginia Woolf, um processo de aprimoramento e preparação para o que iria vir, seus romances que até hoje são clássicos da literatura. Agora saindo (não completamente) do universo da literatura, para criar um projeto de vida é necessário tempo e reflexão, do mesmo jeito que meu professor citou em sala de aula, é necessária uma preparação para aquilo que ainda virá, quando penso que tinha um sonho de ser escritora, como isso foi ingênuo, mas ao mesmo tempo pretencioso. Tenho dezenove anos, muito tempo ainda me aguarda e muitas reflexões, imagino que estou no caminho, mas ainda muito no começo e quando penso em escrever não me sinto digna o suficiente, parece que me falta algo ao escrever, me falta tempo, me falta amadurecimento, mas estou me preparando para o futuro que me aguarda. Talvez este blog seja minha preparação do meu projeto de vida, quem sabe? Quem sabe no futuro eu não veja este blog com um novo olhar, um olhar maduro e se isso acontecer eu já quero deixar um recadinho para o meu eu do futuro.

“Hey, Malu do futuro, hoje você é apenas um processo, mas tenha muito orgulho da sua jornada, a única coisa que precisa ser é você mesma, da sua maneira, sinta orgulho disso sempre, saiba que para mim você é muito especial e seu projeto será ótimo a sua maneira, tenha orgulho disso. ”

“Depois que ela aprender a ler, somente numa coisa você poderá ensiná-la a acreditar, nela mesma” (Pág. 182)

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Análise: As Horas




Mais uma vez Virgínia Woolf será citada no blog! Acho que vou criar um espaço apenas para ela pelo tanto que ando lendo obras dela ou sobre ela, mas acredito que é uma fase minha, mas assumo que está sendo uma fase maravilhosa.
“As Horas” foi publicado por Michael Cunningham em 1998, já pelo título podemos notar a presença da obra da Virgínia na narrativa. Para quem não sabe, o romance – acredito eu – mais conhecido da autora, “Mrs. Dalloway”, iria se chamar As Horas, não sei por que razões a autora mudou o nome do romance – que bom! – Este título não parece captar a essência da história, mas no romance de Cunningham ele é preciso.

O romance conta três histórias paralelas, a primeira narra a própria Virginia Woolf no seu processo criativo de Mrs. Dalloway, não apenas como a história foi criada, mas também como sua vida pessoal refletia ao criar a história (tudo isso na visão do autor). Outra história paralela é a história da Laura Brown, uma mulher americana da década de 1950 que está lendo “Mrs. Dalloway”, então temos as impressões dela sobre o romance e como ele a afeta diretamente em sua vida. O terceira e última história é a de Clarissa Vaugham, uma mulher que vive em Nova York no final dos anos de 1990, nesse caso temos uma releitura mais contemporânea – podemos dizer assim – naquele dia de julho, Clarissa, que é chamada pelo melhor amigo de Mrs. Dalloway, fará uma festa para o mesmo que ganhará um prêmio, Richard foi seu amigo por muitos anos e chegou a ser seu grande amor, naquele dia Clarissa terá muitas reflexões sobre sua vida, igual o romance de Virginia.

A temática do romance se mostra simples, assim como os romances de Virginia, o diferencial está na linguagem mesmo. O autor usa os artifícios de digressão e fluxo de consciência constantemente e de uma forma muito correta, é muito interessante perceber como as histórias tecidas na narrativa estão ligadas de uma forma muito peculiar. Devo frisar que o final deste livro é surpreendente e o faz ser uma ótima leitura! É nesse momento que vemos como realmente as três histórias estão completamente ligadas e como uma influencia a outra, achei o final fantástico.

Todavia, não vou dizer que foi uma leitura espetacular ou que irei recomendar este livro para todos. Sim, ele é muito interessante, mas se notarmos que ele já possui um romance como base para a narrativa, a mesma ainda se mostra muito falha. Acho que o autor pecou um pouco em escolher dar foco em uma história mais do que a outra, não é algo uniforme e eu, como uma grande admiradora da Virginia Woolf e que procurei a história por causa dela, acho que faltou muito a ser trabalhado sobre a autora inglesa e suas influencias com “Mrs. Dalloway”, muitos detalhes foram deixados para trás e com o autor já tinha meio trabalho feito por recriar uma nova visão do romance, acredito que faltou algo a mais para o livro ser fantástico.

Entretanto, recomendarei sempre a adaptação do cinema deste livro, protagonizado por Meryl Streep, Nicole Kidman (inclusive a interpretação dela lhe garantiu um Oscar) e Juliane Moore, não tinha como ficar ruim, pelo contrário, o filme dá a visão que complementa o livro, acredito que é um dos filmes que mais gostei de ver, deixarei o trailer por aqui (clique no hiperlink).

Nesta fase que estou, descobrindo a literatura tão única e incrível de Virginia Woolf, nada mais do que justo conhecer novos olhares sobre essa autora que vem me cativando muito. Mais leituras dela em breve!

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Vamos comprar flores com Mrs. Dalloway



“Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores. ” (Pág. 23)

Meu primeiro objetivo de leitura das férias foi concluído com muito louvor! Mais uma vez, Virginia Woolf não me decepcionou, acredito que esta foi a obra mais magnífica dela e como eu havia lido outros romances, não foi uma leitura complicada, na verdade me senti muito familiarizada com a linguagem.

A história trata de um tema bem corriqueiro. Clarissa Dalloway, uma mulher inglesa de classe média, estava preparando uma festa que daria naquele dia, pela manhã decidiu comprar flores e então temos o percurso de Mrs. Dalloway narrado e todos aqueles que passaram por ela.

Em suma, parece um enredo muito comum, mas a forma que ele é escrito que o faz tão grandioso. Ao acompanharmos Mrs. Dalloway a sua compra, entramos profundamente no inconsciente dos personagens no romance, através do artifício literário do fluxo de consciência feito pela autora. O diferencial desta obra está na linguagem, uma vez que todos os personagens são muito bem aprofundados e em Mrs. Dalloway o discurso se torna indireto e livre, ou seja, não sabemos se há um narrador ou um personagem narrando a história, a combinação de tudo isso, junto ao uso do fluxo de consciência, faz com que aja um envolvimento na leitura. Logo, a obra se torna maravilhosa!

Agora vamos falar de Clarissa Dalloway, uma mulher de meia idade, casada com um homem que lhe proporcionou uma grande segurança no ponto de vista social, econômico, etc. Ao ir comprar flores, Clarissa reencontra um personagem muito importante para o desenvolvimento da história, Peter Walsh, um antigo amor de Clarissa que pode ter sido o grande amor de sua vida, todavia Peter não trazia a segurança que ela precisava, mas este reencontro a colocou em reflexão sobre suas escolhas na vida. Também é bom frisar que estes questionamentos se estendem em Peter também, vemos dois personagens separados pelas suas escolhas que pareceram mais sensatas. Clarissa muitas vezes se autocritica ao dizer que ela buscava uma racionalidade e sua essência foi perdida no decorrer do tempo. Podemos ver que não sabemos seu nome de solteira, apenas Mrs. Dalloway, como uma forma de dizer que Clarissa foi perdendo sua identidade. Então temos uma mulher com o peso das suas escolhas sendo colocados a prova em apenas uma tarde, talvez Virginia queria mostrar em Clarissa uma reflexão sobre os caminhos que tomamos que na verdade não eram aqueles que realmente queríamos, colocar a razão na frente da emoção e no final vermos que somos comuns.

Quero destacar uma cena do final do romance (sem spoilers) onde Peter Walsh e Sally Seton - uma mulher que mais jovem despertou a paixão de Clarissa – reparem em como o tempo fez eles mudarem, as convenções sociais, o conforto entre outras coisas, fizeram todos eles se tornarem o que na juventude eles tanto criticavam. Em vários momentos me peguei a pensar sobre minhas atitudes e é nítida a tentativa da autora em fazer seu leitor se identificar com o enredo da história.

“(...) ‘o que importa o cérebro’ disse Lady Rossester ‘quando comparado ao coração? ’

‘Também vou’, disse Peter, mas permaneceu sentado um pouco mais. Que terror é este? Que exaltação é essa? Pensou consigo mesmo. O que é essa exaltação extraordinária que toma conta de mim?

É Clarissa, ele disse. Pois ali estava ela. ” (Pág. 228)


Outro personagem que não pode deixar de ser citado é o Septimus Smith, um personagem que se liga a Clarissa de uma forma indireta. Os dois personagens se comportam como uma forma de “duplo” (personagens que refletem o outro em um enredo), enquanto Clarissa reflete um lado racional e mais polido, Septimus é completamente ligado a emoção e a ao delírio. No momento que os dois personagens se cruzam, descobrimos que Septimus estava seguindo para uma consulta com o psiquiatra. Um homem atormentado pelos fantasmas da Guerra e que está tendo delírios e tendências suicidas, assim que Septimus é descrito no romance, em contraste com Mrs. Dalloway. Na minha opinião, não consigo dissociar estes dois personagens com a personalidade da própria Virginia Woolf, talvez ambos sejam projeções dos seus estados de espírito e esta discussão me daria mais e mais palavras para serem escritas por aqui.

Agora saindo da esfera técnica e entrando na esfera pessoal, em muitos momentos me identifiquei e me emocionei com os diálogos dos personagens, como eles pensavam sobre a própria vida e até mesmo fui pega me questionando sobre o futuro que procuro na minha vida – eu sei, ainda sou muito nova para ficar pensando tanto nisso, mas é preciso pensar. – Acredito que no final, nos tornamos Mrs. Dalloway e esta convenção pode nos transformar em Septimus. Acho que isto faz Mrs. Dalloway ser tão maravilhoso, na verdade não existe palavras para descrever quanto esta história é incrível, ele é pessoal e nos toca de uma forma muito íntima e única, somos tomados por um sentimento de envolvimento que faz o livro ser pequeno, a leitura passa logo e acabamos com um suspiro de satisfação, como foi bom ir comprar flores junto com Mrs. Dalloway.


Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Análise: Um Teto Todo Seu, um ensaio sobre ser escritora



E mais uma vez eu trago Virginia Woolf para o blog, mas dessa vez, Virginia veio de uma forma mais mordaz, mais reflexiva, não deixando de ser inesquecível.

Na década de 1920, Virginia Woolf – já uma autora de renome -  foi convidada a ministrar palestras sobre “mulheres e a ficção” em duas universidades inglesas, então, temos em “Um Teto Todo Seu” a reunião de seis ensaios da autora sobre este tema que ela teve que se debruçar, o papel da mulher na ficção. Todavia, a abordagem que ela opta é completamente diferente.

Durante os seis ensaios, Virginia frisa na ideia de que para a mulher obter sucesso na escrita literária ela precisa disponibilizar de uma certa quantia de libras e um teto que seja seu. Ou seja, ela precisa ser independente do círculo social que lhe é imposto através dos valores vividos da época, então vemos a autora discutindo diretamente a posição da mulher na sociedade.

Podia-se muito bem apenas ser abordados livros belos e sublimes cujo mulheres fazem parte e dizer quanta genialidade ali possuía, mas Virginia Woolf não queria trazer isso, outro caminho foi percorrido, o caminho da reflexão. A autora de forma única cria um ambiente narrativo para tratar de um discurso direto, tudo isso combinado com o fazer único de literatura de Virginia Woolf, então podemos ver os fluxos de consciência e a escrita lírica da autora nas palavras do ensaio.

Dois pontos quero destacar nessa obra que foram muito importantes para mim, ambos falam de dois autores canônicos. Primeiramente, Virginia Woolf traz a nome de Shakespeare e tudo que este gênio carrega, todavia, ela faz uma breve reflexão, se Shakespeare tivesse uma irmã tão genial quanto ele, ela obteria o mesmo sucesso? E a resposta a autora mesmo nos fornece, a resposta é não. Não, pois a irmã de Shakespeare, na sua época, foi engolida pelas convenções sociais cujo ela pertencia e muito menos ela poderia ser tão genial quanto o irmão uma vez que nunca teria igual educação que foi oferecida ao escritor. Virginia coloca em questionamento a disparidade da educação entre homens e mulheres e como tantas mulheres foram silenciadas ao longo do tempo.

Outro ponto que quero muito destacar é o fato de Virginia Woolf citar Jane Austen. – este parágrafo será mais pessoal – Jane Austen é minha autora favorita, na verdade gosto de dizer que ela é a autora da minha vida, porém neste blog nunca coloquei um post exclusivo para ela, enquanto para Virginia Woolf será a quarta vez que escrevo e foi muito importante ler como Jane Austen (além de Charlotte Bromte e George Eliot) foi tão especial e única em sua época e como isso mudou a forma da mulher se inserir na literatura. Jane Austen não é apenas chás, bailes e casamentos com homens ricos, Jane Austen trouxe voz a um grupo que não possuía espaço se quer e Virginia Woolf estampa isso em seus ensaios, em como Jane Austen e outras autoras no século XIX foram uma exceção no percurso da literatura e como sempre elas precisam ser lembradas.

A problematização da autora não se conclui, pois ela deixa o questionamento para futuras reflexões, reflexões que transcendem os tempos e hoje em dia nos coloca a pensar como é necessária uma autonomia da mulher não apenas no ambiente literário, mas na vida em geral e em Um Teto Todo Seu, Virginia Woolf traz os desafios de ser uma escritora, mas não apenas isso, ela traz os desafios de ser mulher, por isso que esta obra se torna tão necessária. 

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Análise: As Ondas, uma leitura edificante



Após aquele sonho um tanto quanto peculiar, me vi lendo mais uma obra da Virginia Woolf, dessa vez escolhi “As Ondas” e posso dizer que será uma leitura que vou levar para sempre em minha vida. Tive a impressão que após ler o romance inteiro, eu me sentia elevada, as palavras ainda ecoavam na minha mente como ondas calmas na praia.

O livro consiste-se em apresentar monólogos dos seis personagens do romance sobre suas vidas. Todavia, não são apenas palavras ao vento, são significados de vida que trazem à tona grandes temas inerentes ao ser humano como o amor, a morte, a traição, a ganancia, entre outros. Se formos fazer uma análise mais básica, são apenas seis amigos de infância filosofando em lugares aleatórios, talvez nós mesmo com nossos amigos façamos isso também, mas o diferencial é como a autora retrata no romance.

Temos na narrativa de “As Ondas” vestígios de lirismo nas palavras dos personagens, em cada um com sua singularidade, trazendo melancolia, romance, passionalidade, racionalidade e claro, muito lirismo! Talvez esse livro seja o maior traço lírico da Virginia Woolf. Não consigo deixar de relacionar os pontos de vista colocados no romance refletem muito a perspectivas da própria Virginia sobre a vida ou assuntos mundanos.

O modo que a história é redigida é muito especial. A forma que os diálogos são trazidos, junto com o uso do espaço sendo ele muito importante na construção da narrativa é incrível! É sútil e belo, traz calmaria e conforto. As cenas são unidas com os diálogos e reflexões sem uma ordem cronológica muito assídua, de forma que te prende na história de corpo e alma. O espaço não adapta a você, você leitor deve se adequar a ele e entender o que se passa. Não posso deixar de frisar que o primeiro parágrafo é o mais belo e lírico da história.

“O Sol ainda não nascera. Era quase impossível distinguir o céu do mar, mas este apresentava algumas rugas, como se de um pedaço de tecido se tratasse. Aos poucos, à medida que o céu clareava, uma linha escura estendeu-se no horizonte, dividindo o céu e o mar. Então, o tecido cinzento coloriu-se de manchas em movimento, umas sucedendo-se às outras, junto à superfície, perseguindo-se mutuamente, sem parar. ” (Pág.5)

Devo confessar que inúmeras vezes selecionei parágrafos que tocaram meu coração que no final da leitura tinha inúmeros para colocar no post do blog, fiquei em dúvida em qual ser o melhor para selecionar, mas muitas passagens me levavam a refletir sobre minha própria vida e contextos cujo me insiro, mais uma vez voltamos ao meu sonho, talvez era preciso sonhar com ela para eu imergir nessa narrativa edificante de “As Ondas” para compreender todos os meus momentos vividos e seguir em frente com uma nova visão após ler este livro que será levado comigo para sempre. 

sábado, 2 de junho de 2018

O dia que eu sonhei com Virginia Woolf




Sonhos são bizarros, eles têm a capacidade de te fazer refletir sobre tudo que está acontecendo na sua vida ou simplesmente pregar uma peça na sua consciência. Desde o momento que eu acordei, não consigo parar de pensar no meu sonho da noite passada e de tanto estar presente em mim, me vi na obrigação de escrever.

O sonho começou com a visão dos meus passos, usando meus sapatos cor de caramelo, sobre uma ponte, num dia frio de inverno. Andando, encontro uma mulher escorada sobre a ponte, olhando o rio passar, ela era jovem e muito bela e quando me aproximei, ficando ao seu lado, percebi que era Virginia Woolf (a foto que escolhi é bem o que eu vi no sonho mesmo). Ela parecia não notar minha presença, só olhava para o rio passando pela ponte, por uns minutos fico repetindo o mesmo gesto dela, olhar o rio passar até que Virginia se vira para mim, me encara profundamente e diz a seguinte frase:

“You’re not everybody, you are everything.”

Primeiramente, não sei se essa frase está sintaticamente correta, talvez se trate de algo mais poético na frase, só sei que depois disso acordei. Eu sou tudo, mas não sou todo mundo, o que realmente isso quer dizer? Por que Virginia?

Foi simbolismo em cima de simbolismo, naquele momento eu precisava estar naquela ponte, eu precisava refletir sobre eu mesma e o meu valor no mundo. De fato, somos únicos. Não somos como os outros, mas ao mesmo tempo estamos em todos os lugares e deixamos parte de nós em todos os lugares. Quando caminho, cada lugar que eu estive deixei um fragmento de mim e cada pessoa que passou por minha vida deixou sua impressão em mim, assim como eu tenho certeza que deixei nelas. Sempre me atenho na minha singularidade e em como me esforço para não ser levada junto ao rio de mesmices do mundo, mas nunca parei para notar que estou em todas as coisas.

Eu sou o céu que paira sobre minha cabeça, eu sou o chão que piso com passos pesados, eu sou o vento que embaraça meus cabelos e eu sou parte de um mundo que me move dia-a-dia e uma parte de mim também é uma engrenagem no mundo, além de ser essencial, eu só precisava ter consciência disso.

Então tenho a figura de Virginia Woolf. Ainda se mostra algo complexo de se entender, uma vez que não tenho tanto conhecimento da obra dela, mas sei um pouco de sua vida, talvez esse sonho seja um ponto de partida para me aproximar mais das obras dela.

Estar sobre aquela ponte com Virginia Woolf me fez ver como somos vastos e também como somos tão pequenos em relação ao mundo, são tantas metáforas complexas na cabeça, mas ao mesmo tempo entendíveis. Era preciso estar sobre a ponte, vendo o rio passar, só não posso deixar que as pedras dos meus bolsos me afundem nele, eu só preciso continuar caminhando com meus sapatos cor de caramelo.


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

(Análise) Orlando: Vamos falar de gênero

Escolhi colocar a capa do exemplar que li  


Este foi meu primeiro contato com os romances de Virginia Woolf, anteriormente eu só conhecia os contos dela, e assumo que foi um choque e tanto! Primeiramente por ter um estilo diferenciado das demais obras que li e também pela escolha do enredo, que me deixou muito sensibilizada e me colocou em discussão sobre assuntos que até hoje se fazem tão presentes no cotidiano e a necessidade de serem abordados.

Inicialmente, a narradora denota-se uma biografa (sabemos que a história foi dedicada a uma amante de Woolf, Vita Sackville) com o dever de relatar a história de Orlando. Um jovem nobre, muito belo e encantador que vivia em Londres junto da grande corte real onde era muito agraciado. Os primeiros trinta anos de Orlando caracterizam uma jornada muito refinada, Orlando tinha uma grande paixão pela literatura e aspirava ser um poeta, por isso circulava em meios artísticos, além da grande sociedade inglesa.

Após trinta anos de vida, Orlando, após uma grave decepção amorosa e um retiro de Londres entra em um estado profundo de sono e em seus sonhos, é recebido por três entidades: A modéstia, a pureza e a castidade. Quando acorda, Orlando se transforma em uma mulher. O elemento fantástico da transição de homem para mulher é aceito de bom grado pelo protagonista. Decide então mudar de vida e seguir sua jornada junto com ciganos nômades, todavia o sonho de ser poeta persiste e depois de alguns anos decide retornar a Londres, agora como Lady Orlando.

A mudança para Londres se torna um momento essencial na história, uma vez que Orlando vivendo na metrópole começa a questionar os valores da época, é nesse momento que Virginia Woolf nos coloca a pensar sobre a questão do gênero, Orlando tece críticas fortes sobre a desigualdade entre os gêneros. Orlando começa a perceber o quão equivoca eram as convicções que possuía quando homem sobre a vida feminina e quanta liberdade ele possuía quando era o mesmo, esta foi cortada pela sociedade e seus valores no momento que se tornou uma mulher.

Virginia Woolf trazia, no início do século XX, para o público uma discussão que até hoje se faz presente em assuntos do dia-a-dia e que são muitas vezes marginalizados ou vistos como fortes tabus, mesmo sendo precisos. A questão do gênero, da desigualdade, da marginalização e da igualdade são trazidas para as páginas da história com uma delicadeza inigualável e com grande naturalidade que se fazia necessária. Orlando é uma alegoria para que nos colocarmos no lugar das pessoas que são tratadas como desigual e a leitura de Orlando é primordial para todos aqueles que mostram interessa a discutir sobre gêneros na atualidade. Será uma obra que levarei sempre em minha mente e reflexões.

Com carinho, Malu, a traça dos livros.