sábado, 30 de junho de 2018

Análise: A Maçã Envenenada, amor, morte e Nirvana




Ao som de Nevermind começo a escrever sobre este livro e nunca um disco e um livro casaram tão bem nas minhas leituras quanto esses dois, parece que tudo faz mais sentido agora, uma união perfeita.

Desde Margaret Atwood, não ando lendo muitos autores contemporâneos, muito menos nacionais, me sinto em dívida com isso pois parece que eu não valorizo a literatura do meu país, pelo contrário, eu admiro muito o que eu conheço e tenho muita vontade de descobrir mais. Então esta leitura foi muito satisfatória, além de ter sido rápida uma vez que tomou toda minha atenção.

Para começar, somos levados a atmosfera nos anos de 1993 e 1994 cujo a banda grunge Nirvana revolucionava a cultura e o comportamento dos jovens da época, tomamos conhecimento dos relatos do próprio narrador e também protagonista, um jovem de Porto Alegre que tinha uma banda de rock e servia o exército. Temos o panorama de sua vida a partir da vinda do Nirvana ao Brasil em 1993 e tudo que este acontecimento refletiu sobre sua vida até o momento que ele narra a história.

O enredo completo possui nuances e é escrito de forma não linear, então temos recortes de outros acontecimentos da vida do narrador que fazem diferença e costuram a história completa. A história tem como foco dois assuntos que influenciam completamente o andamento de todo o romance e os desdobramentos destes, que são o amor e o suicídio. Ambos, estampados com as músicas do Nirvana e mostram como esta banda refletiu sobre a vida dos personagens.

Temos o narrador como um jovem comum que conhece uma garota para sua banda e partir daquele momento um romance começa a surgir, a figura de Valéria é essencial para o desenvolvimento de toda a trama. Desde então, temos um romance sendo movido pelo amor do casal e por Kurt Cobain e assim como a música “Drain You” – que inspirou o autor a escrever a história – temos a desgaste do casal e a crise, também movida por um certo triangulo amoroso entre outro integrante da banda cujo era melhor amigo do protagonista. O momento de grande crise desse amor é nas vésperas do show do Nirvana no Brasil e temos todo o desdobramento deste narrador com sua amada.

O assunto do suicídio inicia a narrativa noticiando quando o próprio Kurt Cobain se suicidou, sendo isto um ponto crucial para a história, uma vez que as vidas de cada personagem não continuam mais as mesmas e grandes reflexões sobre este acontecimento são relatadas pelo protagonista que sempre leva aquela noticia como um fato chocante em sua vida. Além disso, outro suicídio ocorre na história e a ligação dele com a vida de todos é fundamental, pois no futuro sempre será lembrado assim como a morte de Kurt Cobain.

Não posso deixar de citar um momento particular da história cujo relata a Guerra de Ruanda a vida de Immaculée Ilibagiza e como ela sobreviveu a guerra. Ela é usada como um exemplo a ser seguido pelo protagonista, mostra sua força e dá um novo ponto de vista para a história.

Voltando ao Nirvana, é essencial ouvir a música “Drain you” para que a essencial de toda a história seja captada, isso torna o livro tão envolvente, uma vez que ele é tão eletrizante como as músicas do Nirvana além de fazer contato direto com a juventude daquela época e toda a atmosfera que rodeava, temos em “A Maçã Envenenada” não apenas a história de amor trágica, mas também temos os efeitos do amor de todos os sentidos, o êxtase e a dor, o sentimento de drenar as forças de cada um para se tornarem iguais. Apaixonados.

“Uma garota para outra diz: "Tenho sorte por ter te conhecido”
Eu não ligo para o que você pensa se não for sobre mim
E agora é minha missão, drenar você completamente
Uma viagem através de um tubo e termina na sua infecção

Mastigo sua carne pra você
Atravesso tudo
Num beijo apaixonado
Da minha boca pra sua
Porque eu sou igual a você

Com os olhos tão dilatados, me tornei aprendiz
Você me ensinou tudo sem uma maçã envenenada
A água é tão amarela, e eu um estudante saudável
Endividado e tão agradecido, sugando fluídos” (Drain You – Nirvana)

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.

PS: Menção honrosa para minha diva e professora Gisele Frighetto que indicou esta obra incrível e por ser essa pessoa maravilhosa que me inspira todos os dias! 

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Folhas de Relva, um canto ao universo



“Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo” pois todos os átomos presentes em meu corpo habitam em um universo esplendido cujo sou eternamente grata de fazer parte. Uma saudação a vida, por me permitir ter o dom de escrever e compartilhar a leitura de Walt Whitman, saúdo a este poeta e saúdo a vida por me dar a chance de no mundo habitar junto de suas palavras, elas deixaram digitais em mim e percebo que a partir de hoje o meu mundo não será o mesmo.

Primeiro falarei de como o autor canta para o amor. O amor é tão pleno para ele tratado como uma forma natural, amar é como respirar, simplesmente involuntário. É necessário amar, a partir dele você aprende a viver nesse mundo, uma experiência necessária e válida. Talvez eu ainda não tenha amado o suficiente para escrever sobre este tema, mas posso dizer que aceito esta condição e quem sabe um dia terei palavras suficientes para dizer sobre mim e este sentimento. Deixo este espaço aberto, um intervalo no meio ao elogio da vida em “Folhas de Relva”, que um dia eu possa dizer que senti os versos de Whitman em meu coração como forma de amor.

Então vamos falar sobre o espaço, é inexplicável o tom do poeta ao falar sobre seu país, sobre cada relevo presente nele, cada particularidade que o faz sentir pertencente a um lugar, ele canta seu país e chama a todos para se unir a ele e amar seu lugar de origem. A cada verso que ele fala dos rios, montanhas, desertos eu me via num estado de pertencimento com meu próprio lugar de origem. Por um momento, eu consegui me transportar para a grama verde da minha casa, consegui avistar as montanhas de Minas Gerais e senti o vento frio sobre minha pele, naquele momento eu percebi o quanto sinto falta de casa, mas que a casa sempre está comigo, portanto eu canto junto a meu espaço, não importa aonde eu estiver eu sempre estarei voltando para lá.

Pois por que não cantamos sobre o mundo? Olha que mundo lindo que vivo! Whitman conseguiu trazer algo em mim que fazia tempo que eu buscava nas páginas, mas que cada vez mais eu perdia, a alegria de viver neste mundo. Ora, é de conhecimento de todos as mazelas que nosso mundo carrega e elas não podem ser ignoradas, mas por um momento é necessário olhar o mundo com uma nova perspectiva, colocar espelhos sobre os olhos e ampliar a visão para enfim ver o quão magnifico é pertencer a este imenso mundo, cheio de coisas tão belas, criadas especialmente para nós e que são uma parte unida a milhares de outras cujo você também pertence, formando um universo repleto de possibilidades.

É possível ser infinito em um universo como nosso mundo, de começar algo, desistir e recomeçar, de enxergar a vida com mil maneiras e se reinventar, se tornar algo novo e de novo ser novo para que algo novo surja. Neste momento você se eleva e eleva seu mundo a um patamar que é somente seu. O mundo é seu e ele é feito para cada singularidade que te pertence, você se adapta ao mundo da mesma forma que ele se une a você, uma sintonia perfeita entre cosmos, o seu infinito com o infinito do universo.

“A partir de agora me ordeno liberado de limites imaginários,
Indo aonde eu queira, meu próprio mestre total e absoluto,
Ouvindo outros, considerando bem o que dizem,
Parando, buscando, recebendo, contemplando,
Gentilmente, mas com vontade inegável, me despindo das amarras que me reteriam

Inalo grandes porções de espaço,
O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.

Sou maior, melhor do que eu pensava,
Não sabia que eu tinha tanta bondade.

Tudo parece belo para mim,
Posso repetir a homens e mulheres
Fizestes tal bem a mim que eu faria o mesmo a vós,
Alistarei para mim a vós ao prosseguir,
Me espalharei entre homens e mulheres a prosseguir,
Lançarei um ovo deleite e rudeza entre eles,
Quem me negar não me perturbará,
Quem me aceitar ele ou ela será abençoado e me abençoará”.
(Canção da Estrada Aberta, 5, pág. 330)

Quero permitir-me ser verso livre - como os versos de Walt Whitman - solta no mundo, sem restrições e mesmo assim completamente lírica, cheia de significados. Permito nesse momento levar suas palavras até o infinito do meu ser e eternizá-lo para sempre em minha vida, por hoje em diante eu amo a vida que estou vivendo, independente dos obstáculos existentes, das alegrias e tristezas, da solidão ou acalento, pelo menos a certeza que eu tenho é que ela está sendo vivida. Neste momento eu – celebro o eu, num canto de mim mesmo - sou minha própria poesia e minha própria poeta, eu sou meu mundo e neste mundo eu permito que eu possa viver.

Desta vez, a análise ficou um pouco poética, mas queria expressar o que senti ao ler a coletânea de poemas de Folhas de Relva.

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros. 

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Análise: As Ondas, uma leitura edificante



Após aquele sonho um tanto quanto peculiar, me vi lendo mais uma obra da Virginia Woolf, dessa vez escolhi “As Ondas” e posso dizer que será uma leitura que vou levar para sempre em minha vida. Tive a impressão que após ler o romance inteiro, eu me sentia elevada, as palavras ainda ecoavam na minha mente como ondas calmas na praia.

O livro consiste-se em apresentar monólogos dos seis personagens do romance sobre suas vidas. Todavia, não são apenas palavras ao vento, são significados de vida que trazem à tona grandes temas inerentes ao ser humano como o amor, a morte, a traição, a ganancia, entre outros. Se formos fazer uma análise mais básica, são apenas seis amigos de infância filosofando em lugares aleatórios, talvez nós mesmo com nossos amigos façamos isso também, mas o diferencial é como a autora retrata no romance.

Temos na narrativa de “As Ondas” vestígios de lirismo nas palavras dos personagens, em cada um com sua singularidade, trazendo melancolia, romance, passionalidade, racionalidade e claro, muito lirismo! Talvez esse livro seja o maior traço lírico da Virginia Woolf. Não consigo deixar de relacionar os pontos de vista colocados no romance refletem muito a perspectivas da própria Virginia sobre a vida ou assuntos mundanos.

O modo que a história é redigida é muito especial. A forma que os diálogos são trazidos, junto com o uso do espaço sendo ele muito importante na construção da narrativa é incrível! É sútil e belo, traz calmaria e conforto. As cenas são unidas com os diálogos e reflexões sem uma ordem cronológica muito assídua, de forma que te prende na história de corpo e alma. O espaço não adapta a você, você leitor deve se adequar a ele e entender o que se passa. Não posso deixar de frisar que o primeiro parágrafo é o mais belo e lírico da história.

“O Sol ainda não nascera. Era quase impossível distinguir o céu do mar, mas este apresentava algumas rugas, como se de um pedaço de tecido se tratasse. Aos poucos, à medida que o céu clareava, uma linha escura estendeu-se no horizonte, dividindo o céu e o mar. Então, o tecido cinzento coloriu-se de manchas em movimento, umas sucedendo-se às outras, junto à superfície, perseguindo-se mutuamente, sem parar. ” (Pág.5)

Devo confessar que inúmeras vezes selecionei parágrafos que tocaram meu coração que no final da leitura tinha inúmeros para colocar no post do blog, fiquei em dúvida em qual ser o melhor para selecionar, mas muitas passagens me levavam a refletir sobre minha própria vida e contextos cujo me insiro, mais uma vez voltamos ao meu sonho, talvez era preciso sonhar com ela para eu imergir nessa narrativa edificante de “As Ondas” para compreender todos os meus momentos vividos e seguir em frente com uma nova visão após ler este livro que será levado comigo para sempre. 

sábado, 2 de junho de 2018

O dia que eu sonhei com Virginia Woolf




Sonhos são bizarros, eles têm a capacidade de te fazer refletir sobre tudo que está acontecendo na sua vida ou simplesmente pregar uma peça na sua consciência. Desde o momento que eu acordei, não consigo parar de pensar no meu sonho da noite passada e de tanto estar presente em mim, me vi na obrigação de escrever.

O sonho começou com a visão dos meus passos, usando meus sapatos cor de caramelo, sobre uma ponte, num dia frio de inverno. Andando, encontro uma mulher escorada sobre a ponte, olhando o rio passar, ela era jovem e muito bela e quando me aproximei, ficando ao seu lado, percebi que era Virginia Woolf (a foto que escolhi é bem o que eu vi no sonho mesmo). Ela parecia não notar minha presença, só olhava para o rio passando pela ponte, por uns minutos fico repetindo o mesmo gesto dela, olhar o rio passar até que Virginia se vira para mim, me encara profundamente e diz a seguinte frase:

“You’re not everybody, you are everything.”

Primeiramente, não sei se essa frase está sintaticamente correta, talvez se trate de algo mais poético na frase, só sei que depois disso acordei. Eu sou tudo, mas não sou todo mundo, o que realmente isso quer dizer? Por que Virginia?

Foi simbolismo em cima de simbolismo, naquele momento eu precisava estar naquela ponte, eu precisava refletir sobre eu mesma e o meu valor no mundo. De fato, somos únicos. Não somos como os outros, mas ao mesmo tempo estamos em todos os lugares e deixamos parte de nós em todos os lugares. Quando caminho, cada lugar que eu estive deixei um fragmento de mim e cada pessoa que passou por minha vida deixou sua impressão em mim, assim como eu tenho certeza que deixei nelas. Sempre me atenho na minha singularidade e em como me esforço para não ser levada junto ao rio de mesmices do mundo, mas nunca parei para notar que estou em todas as coisas.

Eu sou o céu que paira sobre minha cabeça, eu sou o chão que piso com passos pesados, eu sou o vento que embaraça meus cabelos e eu sou parte de um mundo que me move dia-a-dia e uma parte de mim também é uma engrenagem no mundo, além de ser essencial, eu só precisava ter consciência disso.

Então tenho a figura de Virginia Woolf. Ainda se mostra algo complexo de se entender, uma vez que não tenho tanto conhecimento da obra dela, mas sei um pouco de sua vida, talvez esse sonho seja um ponto de partida para me aproximar mais das obras dela.

Estar sobre aquela ponte com Virginia Woolf me fez ver como somos vastos e também como somos tão pequenos em relação ao mundo, são tantas metáforas complexas na cabeça, mas ao mesmo tempo entendíveis. Era preciso estar sobre a ponte, vendo o rio passar, só não posso deixar que as pedras dos meus bolsos me afundem nele, eu só preciso continuar caminhando com meus sapatos cor de caramelo.


quarta-feira, 30 de maio de 2018

Análise: A Letra Escarlate



(Se não tiver livro e cappuccino juntos, não é Traça kkk) 


Minha ausência enfim acabou. E a mesma é justificada com esta leitura muito complexa (em vários sentidos), mas que se fez muito essencial. Ando particularmente gostando muito do que estou lendo ultimamente e percebo agora certos traços de uma estudante de letras em minhas leituras, lembro-me de ter ouvido na matéria de teoria do texto narrativo que uma leitura de um romance nunca mais seria igual no curso e com A Letra Escarlate tive essa comprovação.

Então, como já dito anteriormente, ao ler este livro, atentei-me na análise formal. Uma vez que o romance possui uma estética esplendida! Chegando até ser meio difícil escolher por onde começar. 

Primeiramente, o livro é escrito com uma certa prosa poética, então conseguimos reparar em um certo ritmo e lirismo nos diálogos dos personagens e também na fala do narrador. Agora o narrador... o narrador é um elemento sensacional em toda a história. O narrador é descritivo, unido com a intenção de prosa poética, temos o uso de metáforas e outras figuras de linguagem. Além disso, o narrador mostra todo seu conhecimento acerca de cada personagem, traçando seus psicológicos com um caráter muito minucioso. O trabalho do autor foi definitivamente uma obra prima.

Todavia, não posso dizer que foi uma leitura fácil. Pelo contrário, ela foi muito exaustiva, os longos períodos e descrições cheias de metáforas e análises complicadas fazia a leitura ser demorada e maçante, havia momentos que o uso da linguagem figurada mascarava os acontecimentos e eu tinha que retornar em trechos e me situar. Foi trabalhoso, mas não deixou de ser incrível.

Agora, vamos falar da história. Pois uma história dessas merece muitas palavras!

Primeiro começamos com um prefácio do próprio autor Nathaniel Hawthorne, neste, não se sabe a veracidade dos fatos, mas ele nos conta sua vida e seu trabalho em uma alfandega. Ao expressar os fatos, mostra-se também sua motivação para escrever a história, uma vez que descobriu um objeto que lhe intrigou muito e a partir daquele momento, começou seu trabalho criativo. É muito interessante obter este tipo de ponto de vista na história, tornou-se instigante para começar a ler.

"Era uma letra A maiúscula. (...) A letra me interessava estranhamente. Certamente havia nela algum sentido profundo, digno de interpretação e que, por assim dizer, emanava do símbolo místico, comunicando-se sutilmente aos meus sentidos, mas evadindo-se a uma análise mental." (Pág. 44)

Então começamos a trama. Somos levados a Nova Inglaterra do século XVII onde uma jovem, Hester Prynne, acaba de ser condenada a viver durante todos os dias de sua vida carregando um adorno em sua vestimenta como forma de humilhação pública diante ao pecado que cometeu. Por ser uma mulher adultera, Hester dali em diante devia carregar uma letra A na cor vermelha como símbolo do seu crime e viver o resto de sua vida como um exemplo a não ser seguido para a sociedade daquela época, lembrando que se trata de uma cidade com valores puritanos. E assim seguimos o romance, vendo a vida por sete anos desta mulher e suas superações na sociedade.

Hester Prynne é uma protagonista heroica um tanto quanto inovadora para o contexto que a obra se insere. Temos a imagem de uma mulher culta e a frente do seu tempo, e mesmo com as tribulações que a fizeram ser condenada não foram o suficiente para seu caráter ser abalado. Pelo contrário, ela continuou firme aos seus princípios e ao final da trama temos sua redenção, claro, um resultado de uma trajetória sofrida cujo Hester trilhou com muita dignidade e força, independente das palavras e criticas alheias, Hester mostrou-se além da compreensão da sua época.

“Ela assegurava-lhes, também, a sua firme convicção de que, em algum período mais promissor, quando o mundo houvesse ficado maduro o suficiente para isso, no tempo do próprio Céu, uma nova verdade seria relevada, a fim de estabelecer toda a relação entre homem e mulher sobre um terreno mais firme e de felicidade mútua. ” (Pág. 270)

Temos o aspecto moralizante nesta história, mas também ele se liga a inúmeras críticas que o autor tece em relação aos valores puritanos que se instalou nos Estados Unidos, tais valores que também são criticados em O Conto da Aia, acredito que exista certo diálogo das obras uma vez que mostram como esses valores interferem numa sociedade e também como alienam, outro ponto seria o retrato dos reflexos desses valores nas pessoas e como elas faziam para não sucumbir ao desalento. Enfim, mais uma vez recordo que esta obra é genial.

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.

Obs: Assistam o filme "A Mentira", foi ele que me motivou a ler a história. 

domingo, 20 de maio de 2018

Análise: O Grande Gatsby (CBC)




Mais uma leitura cumprida do desafio literário, com muito entusiasmo comecei a ler a história e ela não me decepcionou, também não surpreendeu muito, mas isso é um detalhe, o que realmente importou nessa experiência foi a mensagem passada. Foi meu primeiro contato com F. Scott Fitzgerald e a “Lost Generation” e achei muito satisfatório.

O autor nos leva a Nova York dos anos 20 e toda aquela atmosfera "Art Deco" e "American Dream", um pós-guerra cheio de promessas e uma geração de jovens ricos e despreocupados que passavam seus dias inteiros gastando o dinheiro que herdaram em superficialidades e aparências. Falando assim parece que se trata de uma história muito frívola, mas é o contrário.

A trama é narrada por Nick Carroway – podemos dizer que a voz de Fitzgerald se faz presente no personagem também – que ao relatar os acontecimentos do meio que começou a frequentar, tênues críticas são tecidas ao redor de seu discurso, Nick no meio de toda a esfera de aparências mostra-se humano e com seus princípios.

O narrador relata a experiência de amizade com Jay Gatsby, o mesmo do título. Nele, temos a figura da geração que nascia naquele momento, a figura dos novos ricos que tentavam de tudo para pertencer ao círculo mais tradicional, aquela antiga luta de ascensão da burguesia a nobreza. Todavia, ocorre com Jay Gatsby o que geralmente ocorria, o mesmo sucumbe a sua própria ambição uma vez que foi elevada a grandes níveis e Carroway, apesar de tudo, continua fiel à sua amizade e a partir da derrota de Gatsby começa a enxergar a sociedade com mais crítica.

A ambição é a palavra-chave deste romance, ela gira em torno de toda aquela esfera jovem do pós-guerra, que almejam de tudo e querem ter tudo pois possuem dinheiro o suficiente. São dados como exemplo aos outros, um sonho americano, mas as aparências se tornam u jogo muito perigoso e que sempre acaba com perdedores feridos, no caso do romance até em morte, e a vida de aparências continua sendo seguida. Fitzgerald traz em sua crítica um presságio de colapso deste meio, quando ele escreveu o romance, já vivia em Paris, tentando fugir de onde vivia nos Estados Unidos. De fato, anos depois temos a Crise de 1929 assombrando o país, trazendo novos valores e destruindo o preceito antigo.

Na minha opinião, talvez eu esperasse mais dessa leitura, acho que gostei mais do estilo que o autor escreveu do que do enredo em si, motivou-me a procurar ler mais obras de Scott Fitzgerald. É interessante conhecer a obra de escritores tão clássicos e conhecidos na literatura de um país, e estou adorando ter essa oportunidade a partir do desafio literário. E que venham mais livros!

Com carinho, Malu, a Traça dos Livros.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

O Estrangeiro (CBC) e minha fase existencialista




Primeiramente, eu quero dedicar essa publicação do blog ao meu amigo Israel, o ser culto e mais incrível do campus da UFSCar, além de me encorajar a ler o livro, também discutiu comigo sobre a obra e isso me ajudou muito a escrever. Essa é para você Israel! Obrigada mesmo! E se você estiver lendo isso, não se sinta envergonhado, pois você merece reconhecimento mesmo!

De todos os livros do Charlie Book Challenge, este era o título que mais me intimidava, realmente eu não sabia o que esperar da leitura, além de ter aquela visão de complexidade me rodeando, mas o resultado após ler esse livro foi fantástico e me motivou demais a continuar a ler a obra de Albert Camus.

De início, vou resumir a narrativa em apenas uma palavra. Indiferença. Esta, vai estar presente em todos os momentos enquanto lemos a história, na verdade a indiferença se faz presente até mesmo no título, “O estrangeiro”, quem seria o estrangeiro? Atentei-me a definir o estrangeiro como o próprio protagonista, Mersault, ele é banhado por essa aura de indiferença em sua vida que pode se dizer que ele é um estrangeiro nesse mundo que vive.
Chega a ser perturbador o nível de estabilidade que Mersault tem em relação aos momentos de sua vida. No começo da narrativa, temos o relato da morte de sua mãe, cujo não lhe parece afetar muito, o que mais lhe preocupou foi que ele teria que quebrar sua rotina e ir até a casa de repouso cuidar das providencias do funeral, quando tudo acabou, ele seguiu sua vida normalmente.

Todavia, existe em Mersault momentos de catarse (podemos dizer) onde o protagonista se desprende deste estado latente e realiza certa ação que vai completamente contra sua rotina ou qualquer tipo de vida que ele levava, isto ocorre no final das duas partes da história, cujo são muito emocionantes!
O livro inteiro te traz inúmeras reflexões sobre a natureza humana, exatamente o que o autor procura propor e também o que o contexto da época propõe. Camus escreveu O Estrangeiro em um contexto filosófico específico, o existencialismo, muito conhecido pelo seu pensador Jean-Paul Sartre e foi assim que “O Muro” entrou em minha vida (thak you, Israel). Após ler O Estrangeiro, senti que não foi o suficiente para entender toda a filosofia que por ali girava, então comecei a leitura deste livro, que é um acervo de contos escritos pelo próprio Sartre.

Portanto, estou vivenciando uma fase Existencialista. Para entender seus preceitos, estou usando a literatura ao meu favor e como forma de estudo também. Irei ler, de forma alternada um romance de Albbert Camus e um conto de Sarte. Apenas li – ainda - o primeiro conto, com o mesmo nome do título do livro e a mesma aura de O Estrangeiro também cerca a história, tendo seu final um desfecho chocante assim como a obra de Camus e uma grande crítica aos governos fascistas no período do século XX. O objetivo dessa fase literária que estou vivendo não é apenas entender o contexto filosófico cujo as obras foram escritas, mas também enxergar nelas uma forma de refletir sobre o mundo que vivo hoje, se posso ser também uma estrangeira ao mundo assim como Mersault, só espero não ter o mesmo fim dele.
Então, ao decorrer do blog, ainda lerão muito sobre minha aventura nas palavras de Camus e Sartre.

Com carinho, Malu, a Traça dos livros.